Não nos venderam a história inteira

(*)Fernanda Abadia Couto

Falar sobre a vida das mulheres jovens hoje é, antes de tudo, reconhecer uma contradição: avançamos, mas não o suficiente. Crescemos ouvindo que muita coisa já havia mudado e, de fato, mudou. Há mais acesso à educação, mais presença em diferentes espaços, mais possibilidade de fala. Mas não nos venderam a história inteira. Não falaram sobre o quanto essas conquistas ainda convivem com desigualdades profundas que seguem moldando o presente e interferindo no presente.

Também não nos contaram que a autonomia não depende apenas de vontade, mas de condições reais. Fala-se muito em liberdade de escolha, mas pouco sobre quem, de fato, pode escolher. Fatores como renda, raça e território continuam sendo determinantes na definição dos caminhos possíveis. O que muitas vezes aparece como decisão individual é, na prática, atravessado por limites estruturais que não são iguais para todas.

Nos últimos anos, esse cenário tem sido acompanhado pelo crescimento de discursos que tentam reorganizar essas desigualdades como se fossem escolhas. Nas redes sociais, modelos de feminilidade baseados na centralidade do lar, na dedicação exclusiva à família e na dependência econômica são apresentados como estilos de vida desejáveis. Essa narrativa simplifica a realidade ao desconsiderar as condições materiais que sustentam essas experiências e ao transformar padrões historicamente impostos em preferências individuais.

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Ao mesmo tempo, observa-se a circulação de discursos que canalizam frustrações sociais especialmente entre jovens para conflitos nas relações de gênero. Isso aparece quando dificuldades reais, como conseguir emprego, pagar aluguel ou construir independência, são atribuídas ao avanço das mulheres, ou quando escolhas como priorizar estudo e trabalho são criticadas. Em vez de apontar para questões estruturais, como a precarização e a falta de perspectivas, essas narrativas simplificam a realidade e criam antagonismos, transformando problemas coletivos em disputas individuais e enfraquecendo a construção de respostas mais amplas.

Para as mulheres jovens, isso significa viver em um contexto marcado por avanços e limites. Há mais espaço para questionar, mais ferramentas para se posicionar, mas ainda existem barreiras concretas que condicionam escolhas e trajetórias. Muitas dessas barreiras, inclusive, se apresentam de forma naturalizada, como se fossem parte inevitável da vida.

Dizer que não nos venderam a história inteira é, portanto, reconhecer que a igualdade formal não garante igualdade real. É entender que as conquistas são importantes, mas insuficientes diante das desigualdades que persistem. E é afirmar que a ideia de liberdade só se sustenta quando existem condições concretas para que ela seja exercida.

Também é fundamental reconhecer que não existe uma única forma de viver essa realidade. As desigualdades de raça, classe e território atravessam as experiências das mulheres jovens de maneira decisiva, ampliando ou restringindo possibilidades. Qualquer análise que ignore essas diferenças corre o risco de reproduzir as mesmas exclusões que pretende enfrentar.

Diante disso, o desafio colocado não é apenas preservar direitos, mas aprofundá-los. Isso implica enfrentar as estruturas que sustentam as desigualdades, repensar a forma como o trabalho e o cuidado são distribuídos e construir caminhos que garantam autonomia real.

Porque, no fim, não basta reconhecer que avançamos, é preciso também questionar a ideia de que isso já é suficiente. O futuro não está dado. Ele será resultado das disputas que fazemos no presente. E garantir que esse futuro seja mais justo para as mulheres jovens depende, necessariamente, da capacidade de enfrentar as desigualdades que ainda insistem em limitar nossas possibilidades.

(*)Secretária de Juventude do PT de Belo Horizonte, natural de Santo Antônio do Monte (MG), estudante de Gestão Pública na UFMG e, atualmente, estagiária do gabinete do Deputado Estadual Marquinho Lemos.

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